segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Ajudantes do Papai Noel - Cap II

Fé que não vale um palmito


..........Saímos com vontade de ficar, conhecer o garoto e ver seu sorriso ao encontrar os presentes. Mas a lua já apontava alto, aos poucos os postes da avenida Pedro Taques iam se ascendendo, e iluminando de ambos os lados comerciantes fechando suas lojas. A quarta cartinha indicava o número 1015 da mesma avenida.

De moto na frente, íamos (eu e meu xará loiro) procurando nas paredes do comércio o local indicado. 800, 850... logo atrás vinha o carro cada vez com menos presentes e mais sentimento de dever cumprido. 900 e logo a frente um som de bateria me chama atenção, era uma igreja neopentecostal esbravejando suas glórias, como tantas outras. Lembrei do encontro que usamos este assunto como tema, da discussão apimentada e até certo ponto bem humorada acerca deste tipo de expressão religiosa.

950, esqueci os números e me perdi imaginando como seria diferente o natal de muitas outras famílias, se cada comunidade religiosa organizasse uma campanha solidária. Um gesto concreto é a realização da generosidade e bondade pregada, daquele bom e velho discurso repetido a cada esquina.

Passando pelo pequeno, mas abarrotado salão, eu tentava calcular o número de cestas básicas montadas com um quilo de alimento de cada fiel. Ou uma peça de cobertor para aquecer os albergues, um abraço apertado para alegrar um asilo.

“Passou!” Gritou Gustavo freando do nada, não necessariamente nessa ordem. “1.111 já, a casa ficou para trás”. Para não fazer o retorno, decidimos procurar á pé. Encostamos a moto e fomos caminhando pela calçada, 1097, 1055... Olhei a carta, nela estavam grifadas algumas palavras, era o pedido de Fernanda e sua simplicidade nos comovera. Nele, ela dizia que não queria presentes porque sua mãe não poderia dar, mas que também não ia pedir para o papai Noel. O que ela queria mesmo era uma cesta de natal com azeitonas e palmito, e uma coca cola como nos comerciais.

“1015!” Quase esbarrei no Gustavo que tinha parado do nada, ou eu que durmo demais ou ele tem essas manias drásticas. “Eu não acredito...” gaguejou, enquanto eu guardava a carta, quando olhei para o número indicado entendi tudo. O som de bateria, o canto desafinado e uma casinha humilde atrás de um portão quebrado. A própria necessidade morando aos fundos da igreja, é a doce ironia da vida.

Se a idéia de fé sem ação já me incomodava, aquilo era quase que uma ofensa. Voltamos para o carro enquanto as meninas descarregavam a cesta, quando souberam que a casa que procurávamos ficava no fundo da igreja, questionaram sobre a necessidade real. “Quer dizer, eles arrecadam dinheiro, podem ajudar”, mas não nos demos ao luxo de julgar e fomos todos ao pequeno portão que dava para um puxadinho.

No final do corredor escuro apareceu uma mulher com cara de assustada. “Somos da Pastoral da Juventude, pegamos a cartinha da sua filha e viemos entregar o presente”, eu disse bem alto. Em poucos segundos já estávamos deixando a cesta na mesa da cozinha e negando mais café e bolachas. Fernanda, não estava, mas sua mãe fazia questão de abraçar e agradecer cada um de nós. “Nossa, ela tava agoniada achando que o papai Noel não viria esse ano” disse com um sorriso que valia tudo.

Nos despedimos de dona Fátima porque ainda faltavam três cartinhas para entregar. Passando pelo corredor escuro que dava pra rua, víamos o salão fervendo em louvores e nos bancos, jovens enfeitados nos seguiam com os olhos. Nós, que sem enfeite algum, não medimos esforços para ajudar quem precisava. Voltando para o carro, ainda fiquei sabendo que a menina que sonhava com coca-cola para o natal, é neta do pastor da igreja.

Tenho medo de ser arrogante quando falo disso, mas o que adianta todo esse show se não se transforma em boa ação? De que serve a fé inata e surda para os problemas do mundo? Ás vezes, na ânsia de representar o papel de bom cristão, deixamos passar grandes oportunidades de ajudar de verdade. Nós mesmos! A primeira das cartas era da nossa comunidade. Por isso vale a consciência de melhorarmos a cada dia, reconhecendo nossos limites, mas procurando sempre a melhor forma de agir. Como diz Tiago 2, 26 “Assim como o corpo sem o espírito está morto, a fé sem obras é morta”.